sábado, 17 de setembro de 2011

A Terra se defende: faz diminuir o crescimento

16/9/2011 10:26, Por Leonardo Boff


Hoje é vastamente aceita e entrou já nos manuais de ecologia mais recentes (cf.R. Barbault, Ecologia Geral, Vozes 2011) a ideia de que a Terra é viva. Primeiramente, ela foi proposta pelo geoquímico russo W. Vernadsky na década de 1920 e retomada, nos anos de 1970, com mais profundidade por J. Lovelock e entre nós por J. Lutzenberger, chamando-a de Gaia. Com isso se quer significar que a Terra é um gigantesco superorganismo que se autorregula, fazendo com que todos os seres se interconectem e cooperem entre si. Nada está à parte, pois tudo é expressão da vida de Gaia, inclusive as sociedades humanas, seus projetos culturais e suas formas de produção e consumo. Ao gerar o ser humano, consciente e livre, a própria Gaia se pôs em risco. Ele é chamado a viver em harmonia com ela mas pode também o romper o laço de pertença. Ela é tolerante, mas quando a ruptura se torna danosa para o todo, ela nos dá amargas lições.

Todos estão lamentando o baixo crescimento mundial, especialmente nos países centrais. As razões aduzidas são múltiplas. Mas para uma visão da ecologia radical, não se deveria excluir a interpretação de que tal fato resulte de uma reação da própria Terra face à excessiva exploração pelo sistema produtivista e consumista que tomou conta do mundo. Ele levou tão longe a agressão ao sistema-Terra a ponto de, como afirmam alguns cientistas, inauguramos uma nova era geológica: o antropoceno, o ser humano como uma força geológica destrutiva, acelerando a sexta extinção em massa que já há milênios está em curso. Gaia estaria se defendendo, debilitando as condições do arraigado mito de todas as sociedades atuais, inclusive a do Brasil: do crescimento, o maior possível, com consumo ilimitado.

Já em 1972 o Clube de Roma se dava conta dos limites do crescimento, este não sendo mais suportável pela Terra. Ela precisa de um ano e meio para repor o que extraímos dela num ano. Portanto, o crescimento é hostil à vida e fere a resiliência da Mãe Terra. Mas não sabemos nem queremos interpretar os sinais que ela nos dá. Queremos continuar a crescer mais e mais e, consequentemente, a consumir à tripa forra. O relatório “Perspectivas Econômicas Mundiais” do FMI, prevê para 2012 um crescimento mundial de 4,3%. Vale dizer, vamos tirar mais riquezas da Terra, desequilibrando-a como se mostra pelo aquecimento global.

A “Avaliação Sistêmica do Milênio” realizada entre 2001 e 2005 pela ONU, ao constatar a degradação dos principais itens que sustentam a vida advertiu: ou mudamos de rota ou pomos em risco o futuro de nossa civilização.

A crise econômico-financeira de 2008 e retornada agora em 2011 refuta o mito do crescimento. Há uma cegueira generalizada que não poupa sequer os 17 Nobeis da economia, como se viu recentemente no seu encontro no lago Lindau no sul da Alemanha. À exceção de J. Stiglitz, todos eram concordes em sustentar que o marco teórico da atual economia não teve nenhuma responsabilidade pela crise atual (Página 12, B. Aires, 28/08/2011). Por isso, ingenuamente postularam seguir a mesma rota de crescimento, com correções, sem se dar conta de que estão sendo maus conselheiros.

Mas importa reconhecer um dilema de difícil solução: há regiões do planeta que precisam crescer para atender demandas de pobres, obviamente, cuidando da natureza e evitando a incorporação da cultura do consumismo; e outras regiões já superdesenvolvidas precisam ser solidárias com as pobres, controlar seu crescimento, tomar apenas o que é natural e renovável, restaurar o que devastaram e devolver mais do que retiraram para que as futuras gerações também possam viver com dignidade, junto com a comunidade de vida.

A redução atual do crescimento representaria uma reação sábia da própria Terra que nos passa este recado: “parem com a idéia tresloucada de um crescimento ilimitado, pois ele é como um câncer que vai comendo todas as células sãs; busquem o desenvolvimento humano, dos bens intangíveis que, este sim, pode crescer sem limites como o amor, o cuidado, a solidariedade, a compaixão, a criação artística e espiritual”.

Não incorro em erro na crença de que está havendo ouvidos atentos para essa mensagem e que faremos a travessia ansiada.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Audiência pública revela graves impactos socioambientais do Porto do Açu

Empreendimento de Eike Batista ameaça de remoção moradores de área equivalente a 7 mil hectares, 15/09/2011
Leandro Uchoas
Rio de Janeiro (RJ)


Encontro colocou frente a frente impactados e responsáveis
pelo empreendimento. Foto: Luiza Chuva













O salão estava novamente tomado por homens e mulheres de mãos grossas, pele marcada pelo sol, e o olhar inconfundível dos indignados. Sentados ao redor da mesa oval, atentos e apreensivos, acompanhavam ora os discursos de dor, ora os de descaso. Não era a primeira vez. Há mais de três anos, os agricultores e pescadores do 5º Distrito de São João da Barra, no nordeste do estado do Rio de Janeiro, lutam contra a remoção à qual estão condenados pela instalação, na região, do Porto do Açu, pela LLX do empresário Eike Batista. Destinado a ser o maior da América Latina, o porto envolve recursos da ordem de R$ 6 bilhões, e ameaça de remoção moradores de uma área de 7 mil hectares.
Por isso estavam ali, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), para listar, mais uma vez, os indícios de desrespeito à lei, e o descaso do governo estadual diante dos sérios impactos sociais e ambientais do empreendimento, o maior porto privado do mundo. A audiência pública promovida pelo deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) colocou, frente a frente, os impactados pelo empreendimento, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Julio Bueno, a presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, e o procurador do Ministério Público Federal (MPF), Eduardo Santos de Oliveira.
“O porto afeta a maior área de preservação de restingas do Brasil. Nunca foi feito um levantamento das espécies do local – há muitas ameaçadas de extinção. Nem foi feito um levantamento social e econômico da região. Só na área de produção de alimentos, serão perdidos 15 mil empregos. Levando em consideração a distribuição, serão 50 mil. São 477 propriedades afetadas”, diz o vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais e Imóveis de São João da Barra (Asprim), Rodrigo Silva Santos. “Nós não vamos ceder. Nossa cultura e nossa vida está dentro do 5º Distrito. Não queremos sobreviver dentro de uma ‘subvida’”, completou.
Segundo os impactados pelo empreendimento, São João da Barra é o segundo maior produtor de abacaxi do estado, e o maior de maxixe. Ocupa ainda a terceira posição na produção de pescado no Rio de Janeiro – as obras afetarão 400 famílias de pescadores. Também produz toneladas de verdura e frutas – o fornecimento de comida seria fortemente afetado pela remoção dos agricultores, inclusive na capital do Estado. A enorme área de restinga afetada seria, segundo eles, elemento de conexão entre distintos ecossistemas da região. Os moradores também protestaram contra a repressão do governo estadual a seu direito de manifestação. Um ato teria sido fortemente reprimido pela Tropa de Choque da Polícia Militar.
A representante da direção fluminense do MST, Amanda Matheus, também denunciou o processo de duplicação da BR-101, na mesma região. O traçado da rodovia foi reformulado para ficar próximo ao empreendimento. Atualmente está projetado para passar por dentro do assentamento Zumbi, e afetar gravemente o Che Guevara e o Ilha Grande. “Eles estão prevendo a instalação de um corredor logístico que deve desapropriar os lotes que margeiam a rodovia. Só no Zumbi serão muitas famílias atingidas. Não houve, em nenhum momento, conversa com a população sobre o novo critério de ocupação do solo”, disse. “A mudança no traçado da rodovia atende interesses da prefeitura de Campos, do governo do Estado e de Eike Batista”, lembrou Paulo Alentejano, doutor em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UERJ.
O procurador Eduardo Santos de Oliveira lembrou que, ainda em 2008, o MPF ajuizou uma ação para investigar o empreendimento. “É uma obra de grande complexidade que foi fragmentada no discurso. Eles separaram o minerioduto (que vai trazer o minério de Minas Gerais para o Açu), o porto e o povo. Além disso, é um porto privado, uma porta aberta para o Brasil que pertence a um empresário. Eu soube que nem a Marinha nem a Polícia Federal terão acesso. Temos que discutir as consequências disso”, avaliou, lembrando que já há inquérito para apurar a duplicação da BR-101. “Espero que, um dia, a gente venha a discutir não apenas como se conduz um empreendimento, mas se ele deve ou não ser instalado”, disse.
A presidente do Inea, Marilene Ramos, não aceitou a acusação de que a concessão ao empreendimento foi fragmentada, e questionou a afirmação de que o porto deveria ser autorizado pelo Ibama. “Houve licenciamento apenas do porto e de duas termoelétricas que serão instaladas no local. O licenciamento do Distrito Industrial e da siderúrgica ainda estão em discussão”, afirmou, propondo a instalação de uma Comissão para avaliar, no Inea, o mapeamento dos projetos relacionados ao empreendimento. Marilene sinalizou a possibilidade de alterar o planejamento do Distrito Industrial – área de agricultura a ser ocupada pelos empreendimentos conexos ao Porto do Açu.
Freixo aceitou a formação da Comissão, prometendo integrá-la. Pouco antes, a deputada Clarissa Garotinho (PR), oriunda da região, anunciou, em rápida passagem pela audiência, a formação de uma Comissão Especial na Alerj para acompanhar o Porto do Açu. Freixo e os deputados Paulo Ramos (PDT), Zaqueu Teixeira (PT) e Janira Rocha (PSOL), presentes na audiência, também integrariam a articulação parlamentar. “O governador assinou o decreto de desapropriação porque para ele é fácil. É amigo do Eike Batista. Viaja no aviãozinho dele”, disse Paulo Ramos, muito aplaudido. Roberto Henriques (PR), ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, cidade vizinha, também esteve presente.
Júlio Bueno defendeu o governo. “É assim mesmo. O mundo é contraditório. A gente deve analisar os números. São 15 moradores residentes. A gente está dando uma casa igual a deles em compensação. Desapropriação não é um ato voluntário, é de força. Como a Justiça ainda não reconhece a posse, dentre 84 agricultores, 73 estão recebendo o auxílio produção. O valor varia de R$ 500 a R$ 2.500, dependendo da produção”, afirmou. Júlio não explicou em que área aferiu esses dados, uma vez que o número de impactados é significativamente maior do que os valores apresentados pelo secretário.
Freixo propôs a suspensão imediata das remoções, até que o artigo 265 da Constituição Estadual, que trata de desapropriações, seja cumprido. Júlio não aceitou a proposta. “São R$ 20 milhões já liberados, só para que vocês tenham uma ideia da ordem de grandeza de que estamos falando”, disse, para surpresa dos outros presentes, que estavam falando de direitos humanos. O último encaminhamento da audiência pública foi a intenção de revisar o relatório dos impactos ambientais, o EIA-Rima, de todo o processo envolvendo o Porto do Açu. Esta semana, o Ministério do Desenvolvimento revelou que o Rio de Janeiro superou São Paulo e Minas Gerais em volume de investimento. Só o Porto do Açu recebeu, em 2010, R$ 3,4 bilhões, um terço do que receberam cada um dos dois estados vizinhos, os mais populosos do Brasil. O noroeste fluminense recebeu mais de R$ 8 bilhões.
UBS COMUNICA PERDA DE 2, E ESQUECE DA PERDA DE 17

O Banco suiço UBS veio a público anunciar uma perda de US$ 2 bilhões causada por "operações não autorizadas" de um operador na divisão de banco de investimento. Em comunicado de apenas três linhas e meia, o maior banco da Suíça diz que nenhum cliente foi afetado.

Uma coisa peculiar foi neste anúncio é que o UBS "esqueceu" de informar o público que em operações autorizadas suas perdas  alcançaram US$ 17 bilhões de dólares.

E ainda tem gente que não entende porque a União Européia está em tamanha recessão. A resposta é simples: bancos, os bancos!
E AGORA CÉSAR MAIA? CENTRO-ESQUERDA VENCE ELEIÇÕES NA DINAMARCA E COLOCA MULHER PARA LIDERAR O PAÍS PELA PRIMEIRA VEZ

Apesar de não compartilhar as idéias políticas do ex-prefeito César Maia, considero-o um analista político inteligente.  Nas últimas semanas, com base em eleições realizadas na América Latina, Maia andou notando a ocorrência de uma suposta "onda azul"  que seria caracterizada por vitórias de partidos de direita. Esse foi o caso da recente eleição na Guatemala onde a direita se debatia com a direita para ver quem continuaria governando aquele país centro-americano.

Pois bem, não é que agora bem no coração da União Européia uma coalizão azul que se mantinha no poder por uma década foi apeada do poder para dar lugar a uma de centro-esquerda?  De quebra, a Dinamarca vai ser governada pela primeira vez em sua história por uma mulher, Helle Thorning-Schimidt, do Partido Social-Democrata.

Quando estive na Dinamarca no final de 2006 pude notar bem de perto os efeitos do governo de direita sobre as liberdades democráticas e o acesso de imigrantes a direitos básicos garantidos pelas leis dinamarquesas. Graças a esta persistente ação anti-operária e anti-imigrante, a Dinamarca possui hoje umas das legislações mais restritivas aos direitos dos trabalhadores migrantes de todo o bloco europeu.

Felizmente parece que agora os dinamarqueses decidiram que hora de mudar, ainda que bem pouco.  E agora César Maia, como ficamos em torno de onda? Azul, vermelha ou cor de rosa?



Oposição de centro-esquerda vence eleição na Dinamarca
Dados oficiais parciais indicam vitória do Bloco Vermelho; atual premiê reconhece derrota e deixará cargo na sexta

A oposição de centro-esquerda venceu as eleições parlamentares nesta quinta-feira na Dinamarca, segundo dados oficiais parciais. O primeiro-ministro do país, Lars Lokke Rasmussen, reconheceu a derrota e disse que vai deixar o cargo na sexta-feira.

"Mais cedo esta noite liguei para (a chefe da oposição) Helle Thorning-Schimidt. A cumprimentei e disse que ela tem agora a possibilidade de formar um novo governo", disse Rasmussen, diante de seus eleitores.

Em entrevista à emissora TV2 News, Rasmussem acrescentou que vai entregar sua renúncia à rainha na sexta. "Não há mais base para continuar o governo", concluiu.

Rasmussem também disse que "entregou as chaves do Parlamento" para Schimidt. "E querida Helle, tome bastante cuidado com elas. Você só está as pegando emprestado", ironizou.

Com a vitória do Bloco Vermelho, Helle Thorning-Schimidt será a provável premiê, a primeira mulher a ocupar este posto na Dinamarca. Segundo dados oficiais publicados, após a contagem de 99,2% dos votos, o bloco de esquerda tinha 89 das 179 cadeiras do Folketing, contra 86 para o bloco de direita de Rasmussen, há dez anos no poder.

"Nós conseguimos. Hoje, nós fizemos história", afirmou Thorning-Schimidt para seus partidários.

Esses resultados não incluem os quatro assentos reservados aos territórios autonômos da Groenlândia e Ilhas Feroe, que podem inclinar aritmeticamente a maioria absoluta para um lado ou para o outro. No entanto, segundo a imprensa dinamarquesa, os observadores e a experiência de eleições anteriores indicam que devem fortalecer o avanço da esquerda.

A situação econômica foi a questão principal da campanha, com os partidos da coalizão governista, como outros na Europa, sob pressão diante da pior crise no continente desde a Segunda Guerra Mundial.

A Dinamarca foi poupada de muitos dos traumas sofridos pelos países do oeste europeu, porque continua fora da zona do euro. Isso significa que ela não está envolvida no resgate de países endividados como a Grécia, uma questão que provocou a ira popular na vizinha Alemanha.

Mas a crise econômica transformou o saudável superávit dinamarquês em déficit, que deve subir para 4,6 por cento do PIB no próximo ano.

* Com AP, AFP e Reuters


ROBERTO CARLOS E A QUESTÃO PALESTINA:  A MÚSICA COMO TOMADA DE LADO



Poucas personalidades no Brasil dispõe de um crédito público tão longo e sustentado como o cantor Roberto Carlos. As suas ações sempre são alardeadas pela Rede Globo que, ao longo dos anos, tem se ocupado de comercializar o produto "Roberto Carlos". Eu pessoalmente sempre tive fortes dúvidas não apenas sobre a qualidade musical de Roberto Carlos, mas também sobre o que está por detrás do seu fervor religioso. 

Mais recentemente Roberto Carlos, ao contrário de vários artistas de alcance global como o cantor inglês Roger  Waters (ex- Pink Floyd) que lançaram um boicote cultural ao Estado de Israel, foi a Jerusalém para cantar, tendo sendo recebido com honrarias até pelo presidente Shimon Peres. 

A calorosa recepção das autoridades israelenses se explica em meio à possibilidade cada vez mais concreta de que os palestinos apresentem à assembléia geral da Organização das Nações Unidas sua justa demanda por um Estado palestino soberano. O que não se explica é o papel que Roberto Carlos e as Organizações Globo se prestam neste momento ao se colocar ao lado de um Estado repressor e assassino que há décadas vem operando às margens do direito internacional em nome do seu direito à existência. Aliás, se explica sim se levarmos em conta o papel estratégico que Israel cumpre na sustentação da combalida ordem mundial herdada da Segunda Guerra Mundial.


Neste caso há que ser claro: Roberto Carlos cumpre, mais uma vez, o papel de fiador da ordem estabelecida. E assim qualquer condescendência com seu papel de artista representaria uma validação da aceitação de que o Estado de Israel pode continuar massacrando e chantageando o povo palestino para atender suas necessidades de auto-preservação.  Assim, nada mais correto do que caracterizar Roberto Carlos como um inimigo do povo palestino. De quebra, ouvir Roger Waters em volume alto para espantar a insensibilidade com as grandes causas de nosso tempo. Simples assim.

Quem quiser assistir a um interessante vídeo clip sobre este assunto sugiro acessar e divulgar o seguinte link http://pcb.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=3026:a-musica-que-roberto-carlos-nao-cantou-em-jerusalem&catid=91:solidariedade-a-palestina

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Camponeses são os mais afetados por pobreza extrema no Brasil, aponta Ipea
Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Os camponeses são o grupo social mais atingido pela pobreza extrema no Brasil, revela estudo divulgado nesta quinta-feira (15) pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas). Entre as famílias consideradas “extremamente pobres”, 36% tinham como fonte de renda, em 2009, a produção agrícola.

58% dos brasileiros vivem com menos de R$ 465 por mês; "não pobres" são minoria

Apesar do crescimento da renda e a redução da pobreza nos últimos anos, a maioria dos brasileiros vivia, em 2009, com menos de um salário mínimo, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) divulgado nesta quinta-feira (14). De acordo com o órgão, a renda per capita mensal de 58% dos brasileiros (106,9 milhões) era, há dois anos, igual ou inferior a R$ 465 –salário mínimo da época.

No estudo, o Ipea dividiu os brasileiros com renda mensal inferior a R$ 465 em três grupos: “extremamente pobres” (com renda per capita até R$ 67), “pobres” (renda de R$ 67 a R$ 134) e vulneráveis (renda entre R$ 134 a R$ 465).

A população com renda per capita mensal superior a R$ 465 foi classificada como “não pobre” e representa 42% dos brasileiros (78 milhões de pessoas).

Para o Ipea, os principais fatores que levam os camponeses à pobreza são, pela ordem, o pequeno tamanho de suas terras; a baixa disponibilidade de insumos agrícolas, especialmente de água; a falta de assistência técnica; e os baixos preços pagos pelos seus produtos.

Ainda entre os extremamente pobres, 32% do grupo era composto por famílias que têm como fonte de renda trabalhos informais, sem registro em carteira; 29% por famílias desempregadas; e 3% por famílias com pelo menos um trabalhador formal.

Na faixa dos “pobres”, o maior grupo é o de famílias que vivem do trabalho informal (45%), seguido das famílias que tem ao menos um trabalhador formal (23%) e das famílias camponesas (21%).

Já entre os “vulneráveis”, 56% das famílias têm algum trabalhador formal e 29% tem como fonte de renda o trabalho informal. No grupo de “não pobres”, o percentual de famílias com algum trabalhador formal sobe para 75%, e o de famílias camponesas não passa de 3%.
Nordeste concentra pobreza

O estudo apontou ainda que mais de 30% dos extremamente pobres moram na zona rural de pequenos municípios do Nordeste. Outros 20% desse grupo vivem na área urbana das pequenas cidades nordestinas. Cerca de 10% dos extremamente pobres estão nas áreas urbanas das grandes cidades do Nordeste e outros 10% nas cidades grandes do Sudeste.

O Ipea é uma fundação pública federal vinculada ao Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República do Brasil.

Feijão Transgênico: Mais estudos, menos propaganda!

Nesta quinta-feira (15), a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) irá votar em Brasília o pedido de liberação comercial do feijão transgênico, desenvolvido pela Embrapa. A variedade seria resistente ao vírus do mosaico dourado, mas a existência de poucos estudos faz surgir muitas dúvidas sobre esta nova variedade e as possíveis ameaças ao feijão convencional e crioulo historicamente cultivados no Brasil.
Apesar de ser papel da CTNBio promover o debate e garantir estudos técnicos sobre os transgênicos, a votação do feijão geneticamente modificado tem sido atropelada e sem a realização de avaliação de riscos ao meio ambiente e a saúde humana. Confira as dúvidas listadas por organizações e movimentos que acompanham o tema, e participe da audiência que discutirá a liberação do feijão transgênico.
Data: 15 de setembro de 2011
Local: Auditório no Ministério da Ciência e Tecnologia, Brasília
Horário: 9 horas
Telefone para informações            (41) 3232-4660      
Na foto, em sentido horário: feijão sopinha, feijão miúdo (fradinho), feijão-de-lima (olho de cabra), branco pintado, feijão vermelho, feijão praia, feijão cavalo, feijão-de-lima claro (olho-de-cabra), feijão-de-corda miúdo, feijão-arroz, feijão mouro, feijão-amendoim, feijão amarelo, feijão manteiguinha e feijão fradinho.
FEIJÃO TRANSGÊNICO: MAIS ESTUDOS, MENOS PROPAGANDA.
Os estudos são insuficientes: A Embrapa não realizou testes em todas as regiões do país, o que impede de saber a interação desta nova planta nos diferentes biomas. Preocupação especialmente com a região Nordeste, tradicional produtora de feijão crioulo na agricultura familiar, e que foi excluída dos testes da Embrapa, descumprindo decisão judicial que exige a realização de estudos caso a caso em todos os biomas brasileiros.
O risco de contaminação é grande: Não houve estudos suficientes sobre a ação dos polinizadores (abelha, pássaros, vento etc) e a possibilidade de contaminação genética pelo feijão transgênico. É preciso garantir o direito dos agricultores à livre escolha de seu sistema produtivo, seja convencional, agroecológico ou transgênico, de forma que as culturas coexistam, e também que o direito dos consumidores à informação sobre que tipo de alimento querem consumir seja também respeitado.
A tecnologia é falha: Os estudos apresentados pela Embrapa demonstram falhas na modificação genética das planas testadas: dos 22 eventos gerados, apenas 2 realmente resistiram ao vírus do mosaico dourado, sem que se tenha estudado porque os outros 20 falharam. Menos de 10% dos testes deram certo e a própria Embrapa afirma não saber o motivo. Então para que a pressa em aprovar este novo feijão?
Muitos segredos e poucos esclarecimentosInformações indispensáveis sobre o feijão transgênico estão sob sigilo, ou seja, a sociedade, e até alguns membros da CTNBio, não sabem o que de fato foi inserido na construção genética do feijão e quais seus impactos no meio ambiente e na saúde humana. Apesar disso, o pedido é de que esta mesma seqüência genética possa ser inserida em todas as outras variedades comerciais de feijão existentes no Brasil, sem promover novos estudos para cada uma delas, ao contrário do que obriga a legislação nacional e internacional.
CTNBio se recusa a pedir mais estudos: Diante dos diversos problemas identificados pela comunidade cientifica, organizações e movimentos da sociedade civil, a CTNBio deveria, no mínimo, justificar cientificamente por que considera os estudos atuais suficientes para a liberação do feijão transgênico. Ao contrário, a Comissão, apesar de técnica e com a função de avaliação, ao invés de cumprir com as próprias normas que edita, afirma que não vai seguir a Lei porque a mesma é “caduca”. .
Fala-se em ciência, mas se mostra pouco conhecimento científico: A CTNBio é um colegiado composto por 27 pesquisadores. Destes, 16 já se mostraram favoráveis ao feijão transgênico e anteciparam seus votos, sem aguardar o debate técnico em plenária sobre o assunto, desconsiderando os pontos apresentados pela comunidade científica e a sociedade civil em audiência pública. Os pareceres favoráveis à liberação do feijão transgênico também não possuem nenhum argumento científico e não citam nenhuma referência bibliográfica para fundamentar suas opiniões a favor da liberação. Muitos defendem o feijão transgênico somente por ele ser desenvolvido pela Embrapa, como se isso substituísse a devida avaliação de riscos exigida por Lei.
Existem outras opções tecnológicas: A Embrapa já havia desenvolvido experiências que comprovavam o controle do vírus do mosaico dourado a partir de práticas de manejo do feijão orgânico. Mas agora prioriza investir na tecnologia transgênica, mesmo assumindo as diversas falhas em seu desenvolvimento, dando um péssimo exemplo de descumprimento das leis nacionais. Enquanto ente público, a Embrapa deveria priorizar o respeito pela Lei de Biossegurança e garantir os estudos de avaliação de risco obrigatórios pela legislação brasileira.
Feijão brasileiro é feijão da agricultura familiar: Alguns pesquisadores da CTNBio e articulistas têm falado que o feijão transgênico é uma tecnologia “verde e amarela” e afirmam ainda que o Brasil não tem variedade crioula de feijão. Por isso, supostamente, a falta de estudos não geraria risco para a biodiversidade de feijão no país. Contudo, o senso agropecuário publicado pelo IBGE em 2009 revela que é a agricultura familiar quem alimenta os brasileiros produzindo 70% de todo o feijão disponível no país . Diante disso pergunta-se: qual o feijão está na mesa do povo brasileiro?
É preciso estudos, pesquisas, dados e comprovações que garantam a proteção do meio ambiente e da saúde humana. Por enquanto, verde e amarelo é o feijão produzido pela agricultura familiar responsável pela segurança alimentar dos brasileiros!
Entre as Torres Gêmeas, o Palácio de La Moneda e o genocídio africano: os diferentes significados do 11 de Setembro

Artigo publicado no dia 11/09/2011 no número 212 da revista SOMOS ASSIM


No dia de hoje é muito provável que sejamos inundados com imagens de uma década atrás, quando os agentes da Al Qaeda realizaram uma combinação espetacular de atentados que deixaram os norte-americanos atônitos. É mais do que certo que sejamos lembrados do heroísmo de bombeiros e policiais que morreram tentando salvar os que estavam aprisionados dentro das Torres Gêmeas de Nova York ou nas dependências do Pentágono na cidade de Washington. É muito provável que também sejamos inundados com histórias pessoais de alguns dos quase 3.000 mortos naquele dia.  Por outro lado, também é muito provável que a maioria dos telejornais e jornais impressos esqueçam de mencionar que o dia 11 de setembro marca, para nós americanos, não apenas uma década dos atentados nos EUA, mas também os 38 anos do golpe militar comandado pelo general Augusto Pinochet contra o governo eleito democraticamente de Salvador Allende; o golpe , realizado sob as bênçãos do governo norte-americano, resultou numa das mais sangrentas ditaduras estabelecidas na América Latina.  E também é quase certo que nada seja dito sobre as mais de 40.000 pessoas assassinadas pela ditadura de Pinochet no sul-americano Chile.

    A verdade é que, ao se concentrar no 11 de Setembro que abalou os EUA, a imprensa brasileira, e certamente a mundial, perderão uma grande oportunidade de examinar as raízes da violência representada na atualidade pelos grupos não-estatais cujo mais falado é a Al Qaeda. Se procedessem de forma diferente e estabelecessem as conexões entre os dois 11 de Setembro, talvez nos oferecessem a oportunidade de realizar um balanço mais informado acerca das conseqüências da política externa dos países ricos no mundo contemporâneo. No entanto, a opção por uma dramatização extrema do que aconteceu em Nova York e Washington não será acidental, mas obedecerá a interesses claros.  Afinal de contas, não há como não associar a violência paraestatal às políticas de Estado responsáveis pela sua existência.

     Neste sentido, uma verdade especialmente incômoda é que se uma discussão mais séria sobre as razões que levaram à ocorrência dos atentados comandados pelo agora defunto Osama Bin Laden fosse feita, esta certamente mostraria conexões que, normalmente, são ocultadas em nome de interesses estratégicos. Um exemplo disto foi a recente descoberta de que tanto a CIA como o MI-6 (o serviço de inteligência inglês) cooperavam com o regime do ditador líbio Muammar Kadafi. De acordo com os documentos encontrados na fortaleza que Kadafi possuía em Trípoli, esta cooperação envolveu inclusive o envio de prisioneiros da denominada “Guerra contra o Terror” para serem interrogados em prisões líbias, onde as práticas de tortura eram mais do que conhecidas.  O curioso é que agora que decidiram se livrar de seu aliado problemático, os norte-americanos e britânicos estão tendo de se explicar sobre os documentos secretos deixados para trás, aparentemente de forma proposital, por Kadafi.

     No entanto, o caso da Líbia não é exceção, mas regra.  Se examinarmos somente o massacre de Ruanda, onde mais de 800 mil pessoas (da minoria étnica tutsi e de elementos moderados da maioria hutu) foram assassinadas entre abril e julho de 1994, veremos que este massacre ocorreu sob os olhares cúmplices dos países ricos.  Mas qual jornal ou canal de TV nos lembrou este ano deste evento vergonhoso para a civilização humana? Salvo algum engano, não houve uma menção sequer.  E olha que estamos falando de um acontecimento cujo único paralelo possível é o holocausto do povo judeu sob o Nazismo.  O pior é que apenas durante a última década, a África foi palco de outros tantos massacres, seja aqueles ocorridos na Somália ou, mais recentemente, no Sudão. E o mais lamentável é que nenhum deles tem sido colocado no mesmo patamar trágico a que assistimos anualmente desde que os aviões comandados pela Al Qaeda acertaram em cheio as Torres Gêmeas.

    O mais problemático deste tratamento desnivelado entre o significado do que ocorreu em 2001 nos EUA e outras tantas tragédias de tamanho imensamente maior, seja em número de vítimas ou nos efeitos duradouros sobre as sociedades em que ocorreram, é que ficamos condenados a assistir passivamente a ocorrência de novos massacres. Afinal de contas, ao assimilarmos apenas a dor dos que detém a hegemonia política e econômica, acabamos por ver as desgraças dos pobres como algo que lhes é inerente sendo, portanto, um fato que pode ser visto como sendo natural.  E aqui não se trata de questionar o direito das vítimas da Al Qaeda de serem lembradas e de terem suas mortes lamentadas. Pelo contrário, pois toda vida humana é preciosa, e toda violência deve ser rejeitada. No entanto, se quisermos viver num mundo minimamente harmônico, temos de começar realmente a considerar que todos têm o direito de viver em paz e com dignidade.  Caso contrário, todo o frenesi midiático em torno dos acontecimentos que hoje completam uma década não passará de um material desprovido de conteúdo e destinado apenas a perpetuar o ciclo de violência em que estamos imersos mundialmente.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

DE VOLTA DA CHINA, ONDE OS BLOGS ESTÃO BLOQUEADOS




Este blog ficou sem ser renovado desde o dia 04 de setembro quando iniciei uma viagem à República Popular da China. Acontece que na China o acesso à blogs, Facebook e Twitter estão proibidos. Assim, não pude compartilhar com meus eventuais leitores todas as coisas que pude observar por lá.

Mas ainda que eu ache qualquer tipo de censura uma coisa burra, não vou aqui me ocupar disto. Espero nos próximos dias falar um pouco do que vi por lá, pois acredito que o destino do mundo está intimamente ligado ao que acontece na China.

De passagem é preciso dizer que meu pequeno período de exposição a um lugar específico da cultura chinesa me fez renovar meu respeito por ela. E acima de tudo não há como deixar de observar o raro bom humor que os chineses possuem, em meio a jornadas diárias de 12 horas.  





domingo, 4 de setembro de 2011


Na ode ao consumo da violência escondida sob a capa de esporte, um retrato nítido da sociedade em que vivemos.


    
Ao escrever em 1974 o livro “O Mito do Desenvolvimento Econômico”, o economista Celso Furtado teve a coragem de antecipar várias discussões sobre a impossibilidade de que o modelo econômico vigente nos países ricos pudesse ser adotado com sucesso em todas as partes do mundo.  Pelo contrário, Celso Furtado colocava essa noção no plano mitológico, visto que para ele não haveria condições sociais e ambientais para tal adoção nos países da periferia do capitalismo.  Isto, contudo, não impediria que nos países periféricos as elites adotassem as formas de consumo disseminadas a partir dos países centrais, num esforço de mimetizar modos e costumes que lhes garantiria um ar de modernidade. Já para a maioria pobre, Furtado antecipava um aprofundamento da miséria e da exploração. 

    Passados sete anos desde sua morte, as idéias de Furtado parecem cada vez mais válidas, e evidências surgem por todos os lados para mostrar que as elites brasileiras se contentaram em imitar o modo de vida consumista e alienado que impulsiona seus congêneres nos países desenvolvidos. A pista para isto já havia sido dada com a multiplicação de programas de reality show tipo o Big Brother Brasil, onde o elogio às piores deformidades morais produzidas pelo gênero humano aparece na forma de prêmios milionários, servindo ainda para que brotem para a mídia sensacionalista novas estrelas de brilho efêmero.  Mas a recente edição do chamado Ultimate Fighting Championship (UFC) na cidade do Rio de Janeiro me pareceu ser a confirmação suprema das previsões de Celso Furtado.  Isto apareceu nos pronunciamentos feitos por pseudo-celebridades, milionários, políticos, ex-jogadores de futebol e artistas de TV presentes no evento, uma salada mista de famosos formada por figurinhas conhecidas como Eike Batista, Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Aécio Neves e Luciano Huck.

     Pior que o besteirol proferido  pelas celebridades entrevistadas durante o evento, só mesmo a sequência de confrontos entre os empregados do norte-americano Dana White que, sob a capa de atletas, se alternaram em bater em adversários semi-desfalecidos, mas que ainda tinham tempo de proferir verdadeiras odes a si mesmos. Mais longe ainda foi Anderson Silva, quando após surrar o adversário Yushin Okami citou o “Capitão Nascimento”, o truculento mocinho do filme Tropa de Elite. O fato de que um oficial do BOPE também participou de um dos confrontos já denunciava esta conexão entre a tropa de elite do Capítão Nascimento e os empregados de Dana White. Aliás, será que alguém pensaria numa síntese melhor? Por nos ringues da UFC um símbolo da violência que assombra diariamente as comunidades pobres da cidade do Rio de Janeiro.

     Entretanto, outro evento aparentemente desconexo, ocorrido no mesmo dia e na mesma cidade, mostrou como a realização do UFC é algo que exemplifica os efeitos dantescos da adoção dos enlatados por uma elite alienada. Após anos de descaso, um dos bondinhos que servem à comunidade e aos turistas que freqüentam o lúdico bairro de Santa Teresa descarrilou, matando cinco pessoas e ferindo mais de cinqüenta.  As primeiras análises do veículo acidentado mostraram que o sistema de frenagem estava preso apenas por um arame, em vez dos requeridos parafusos.  O único representante do governo estadual que se dignou a comparecer a Santa Teresa, o secretário estadual de Transportes Júlio Lopes, foi recebido debaixo de vaias e sob um coro de ofensas por parte dos normalmente pacatos moradores do bairro.  Como era de se esperar, Júlio Lopes apresentou explicações que não convenceram ninguém, e prometeu finalmente fazer o que já deveria estar sendo feito há muito tempo.
       Mas qual seria o nexo que tento estabelecer entre o que um dos meus ex-orientandos chamou de “rodeio de seres humanos” e a tragédia de Santa Teresa? É que conhecendo um pouco o país de origem do proprietário do UFC, uma incidente como este não apenas teria uma repercussão muito maior do que teve, mas provavelmente o evento seria transferido para outra data. É que lá no centro difusor do produto consumido pelos ávidos fãs brasileiros, há ainda uma certa etiqueta que desencoraja as demonstrações explicitas de frivolidades em meio a tragédias. 

       Neste contexto marcado pela ode à violência, mesmo que mascarada por holofotes e câmeras de TV, o mais preocupante é que a falta de sensibilidade das elites brasileiras não se restringe apenas à realização de eventos comerciais em dia de tragédia.  Ela está presente na relações sociais cotidianas, e as aparentes disputas de modelos de governar ficam apenas na aparência, pois em sua  essência os participantes são todos farinha do mesmo saco.  E o que se esperar de uma sociedade que naturaliza, e até mesmo idolatra a violência, senão mais violência?  Assim, que ninguém se surpreenda se no vácuo da realização do UFC não tivermos mais ataques a homossexuais e empregadas domésticas confundidas com prostitutas por parte dos jovens que consomem o que é ali comercializado: a violência em sua forma mais pura e profunda.  Afinal de contas, ninguém é ingênuo a ponto de pensar de que a mensagem disseminada por este tipo de produto se encerra quando os holofotes se apagam. E vida longa ao Capitão Nascimento!