terça-feira, 24 de setembro de 2013

UOL: Vale diz que MMX, de Eike Batista, quebrou contrato por não embarcar carga

Do UOL, em São Paulo


O presidente da Vale (VALE5), Murilo Ferreira, disse nesta terça-feira (24) que a mineradora MMX (MMXM3), de Eike Batista, quebrou contrato com a empresa de logística MRS. A Vale é sócia da MRS.

Segundo Ferreira, a MRS tem um contrato de "leva ou paga" com a MMX, pelo qual a mineradora tem a obrigação de embarcar minério de ferro em ferrovia da empresa de logística. 

Ferreira afirmou que a inexistência de embarques provocou uma quebra de acordo. Procurada, a MMX não havia se pronunciado sobre o assunto até a publicação desta reportagem.

(Com Reuters)

Exame: OS(X ) pede pelo mais um ano para quitar quase R$ 1 bi em empréstimos com Caixa e BNDES

OSX pede prazo de um ano para pagar Caixa e BNDES

A empresa naval do grupo EBX tem empréstimos nos dois bancos que vencem em meados de outubro e totalizam R$ 948 milhões



Jonathan Alcorn/Bloomberg
O ermpresário Eike Batista: esse é o mais recente sinal dos problemas financeiros que Eike continua a enfrentar em algumas de suas principais empresas

São Paulo - A companhia de construção naval OSX, de Eike Batista, pediu uma extensão de pelo menos um ano nos prazos dos empréstimos concedidos pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES), segundo uma pessoa próxima à negociação.

Esse é o mais recente sinal dos problemas financeiros que Eike continua a enfrentar em algumas de suas principais empresas, apesar de uma série de vendas de ativos nos últimos meses. Qualquer default na OSX pode levar a companhia à falência, com outros possíveis efeitos no Grupo EBX.

A OSX tem empréstimos nos dois bancos que vencem em meados de outubro e totalizam R$ 948 milhões, segundo a porta-voz da empresa, Roberta Brandão. Ela confirmou que a companhia está negociando uma extensão dos empréstimos com os bancos, mas se recusou a fornecer detalhes. O empréstimo de R$ 400 milhões com a Caixa vence em 19 de outubro; o de R$ 548 milhões com o BNDES, em 15 de outubro.

Segundo a fonte, a Caixa vai decidir nas próximas semanas se aprovará o pedido. “Ainda é cedo para dizer se o banco vai aprovar a extensão, mas a tendência é essa”, disse a fonte.

A OSX tem um total de R$ 5,3 bilhões em dívidas, das quais aproximadamente R$ 1,07 bilhão envolvem a Caixa. O banco já suspendeu novos pagamentos à OSX para a construção de um estaleiro no Porto de Açu. Após a crise de confiança do grupo, a OSX cancelou a expansão do porto.

A Caixa informou na segunda-feira, 23, que não comentará o possível pedido de extensão de um ano no prazo do empréstimo. Fonte: Dow Jones Newswires. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Cláudio Humberto via Brasil 247: Dilma não chamará Sérgio Cabral para ser ministro

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A articulação da desigualdade e o Mensalão



A decisão final do STF pela prorrogação do julgamento do mensalão, decidida a partir do voto do ministro Celso de Melo na sessão de 18 de setembro, dará margem para numerosas interpretações e embates políticos. Como, aliás, vem ocorrendo desde que se instalou o tribunal para o julgamento do chamado Mensalão do PT, sob midiatização global que tem paralelo apenas na empreendida quando do impeachment de Collor de Mello.

Em um extremo desse acirrado embate encontra-se a grande mídia corporativa que, associada à classe média conservadora e aos representantes da direita mais tradicional, esforçou-se para transformar o tema em enorme espetáculo público. A opinião pública foi formatada para clamar pela punição dos corruptos, identificados nos líderes históricos petistas. É claro o objetivo de enxovalhar a origem operária e popular daquele partido, com a qual o mesmo e os acusados romperam, há anos.

Não é difícil adivinhar o que move aquele espectro político. A direita ideológica jamais se conformou com a chegada ao poder dos ex-representantes dos trabalhadores, de ex-guerrilheiros e de militantes sociais, mesmo quando se puseram a serviço do capital. A execração de membros de destaque dessa antiga militância permite a desconstrução de memória e tradição populares, as quais, há tempos, o PT e seus dirigentes traíram, para participar da gestão do poder econômico e político.

Em outra vertente, também extremada, estão aqueles que negam a existência do mensalão – ele teria sido mera criação da direita para golpear politicamente o PT. Hipótese hoje difícil de abraçar, sobretudo após o julgamento no STF, que comprovou, em forma indiscutível, a corrupção de deputados da base governista para o mais fácil apoio a medidas antipopulares, com destaque para a reforma da previdência dos funcionários públicos.

Não restam dúvidas quanto aos componentes conservadores e partidários que motivaram o julgamento. Registre-se que, bem antes dos mensaleiros petistas, tivemos seus precursores tucanos, assessorados pelo mesmo Marcos Valério, que somente foi midiatizado quando passou a assessorar a corrupção petista. Antes e paralelamente ao mensalão dos tucanos, tivemos a monumental privataria tucana, já destrinchada nas suas entranhas e até hoje pesando nos ombros da população.

Sobre essa corrupção oceânica, a grande mídia manteve e mantém silêncio e o STF se nega a se pronunciar. Ultimamente, tucanos foram pegos, outra vez, no escândalo do “propinoduto” do metrô paulista, para o qual o governador do estado mal disfarça a sua indisposição para uma efetiva investigação.

Os que almejam, no entanto, uma sociedade social e politicamente justa devem pensar além dessa estrutura binária apresentada pela mídia, que quase reduz a liquidação da corrupção à execração e envio à cadeia de petistas paradigmáticos pelos passados de luta, hoje traídos, enquanto favorece que oficiais responsáveis por crimes imprescritíveis, quando da ditadura, permaneçam intocados. Essa estrutura enrijece o olhar e o raciocínio, e não aponta saídas para realidades complexas.

No atual julgamento do mensalão do PT pelo STF, reconheceu-se acertadamente a vigência do direito de defesa, devido a todo e qualquer cidadão, com a aceitação dos ‘embargos infringentes’ – recurso corroborado juridicamente por ampla gama de profissionais do Direito, uma vez ilegal a condenação, em primeira instância, com escassa maioria simples entre os membros do júri. Essa não é, no entanto, a discussão principal.

O que está em jogo no Brasil é a democratização e superação do Estado que legitima, há séculos, a desigualdade e a violência social - e, consequentemente, a corrupção, forma ilegal emarginal de apropriação privada do trabalho da população, ao lado das formas legais e dominantes. Todas as instituições que constituem esse Estado servem, sem exceção, a essa lógica perversa, criada pela e para as classes dominantes, com suas leis, práticas econômicas e, logicamente, seu ritual jurídico.

Entre estas instituições, encontra-se o próprio STF, que tem contribuído historicamente para o não cumprimento de direitos sociais reconhecidos pela Constituição – trabalho, educação, saúde, segurança, reforma agrária etc. Assim como tem impedido o reconhecimento de direitos civis democráticos indispensáveis à dignidade social.

Não sabemos ainda quais serão os desdobramentos, jurídicos, políticos e sociais, da continuidade do julgamento do mensalão petista. Nem qual será o investimento realizado pela grande mídia, partido estratégico dos grandes interesses nacionais e internacionais no Brasil. Certo é que, sejam quais forem esses desdobramentos, seriam bem melhor conduzidos se acompanhados pela inclemência popular não somente face aos espetáculos midiáticos e jurídicos, mas aos clamores por se apiedar frente a qualquer tipo de corrupção, venha de que partido vier, e qualquer que seja a sua coloração política.

JB: "Governador pacificou a Rocinha como na Alemanha. Só falta câmara de gás"


Davison Coutinho 


Uma comunidade abandonada pelo poder público durante décadas, dominada pelo tráfico, sobre pressão e opressão por toda uma vida. De repente , surge o sonho de uma vida melhor: a instalação da unidade de policia pacificadora. A promessa é que seria de uma vida melhor, sem violência, tudo com objetivo da propagação da paz.

No entanto, em meio aos becos e vielas estavam acontecendo ameaças,opressões, espancamentos e torturas, como já foi denunciado pelo Jornal do Brasil durante as investigações do sumi?o do pedreiro Amarildo e neste domingo (22/9) foi tema de matéria do programa Fantástico. 

Trabalhadores saindo para trabalhar e sendo coagidos, pessoas sendo consideradas como suspeitos e sendo tratadas como nenhum ser humano merece ser tratado. Moradores sendo abordados com choque no rosto, porrada, espancamento,sufocamento e spray de pimenta. Tudo isso porque depois de uma semana dura de trabalho costumam sair para as ruas para confraternizar com os amigos.

Não aguentamos mais opressão, esse povo precisa de libertação. Somos seres humanos, merecemos respeito. Chega de farsa, vamos ser realistas. Vamos dar um basta de tampar o sol com a peneira, não é impondo medo que vamos chegar a um lugar melhor.

Vale lembrar que a transformação e mudança vem antes de repreender, prender e matar. A mudança somente será concretizada através da educação, ninguém aprende nada com tapa na cara e sufocamento.

É essa a politica de pacificação tão inovadora do Governador Sérgio Cabral? É esse o caminho para transformação da cidade maravilhosa? É essa a comunidade modelo que a presidenta pediu ao Governador?

*Davison Coutinho, 23 anos, morador da Rocinha desde o nascimento. Formando em desenho industrial pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade, funcionário da PUC-Rio.


UOL: Lula e FHC garimpam no agronegócio vices para afilhados

Gustavo Porto e Suzanha Inhesta | Agência Estado


Carlos Humberto | BG Press | Arquivo A TARDE
Ex-presidentes, aqui em foto de 2012, buscam soluções parecidas para vices

Os ex-presidentes da República Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso assumiram pessoalmente a busca por nomes de candidatos a vice-governador de seus partidários, respectivamente Alexandre Padilha e o governador Geraldo Alckmin, na eleição paulista de 2014. E, coincidentemente, os primeiros sondados foram duas das principais lideranças do agronegócio brasileiro - o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues e o ex-secretário da Agricultura de São Paulo João Sampaio - que dificilmente cederão às investidas.

A investida sobre Rodrigues e Sampaio começou há duas semanas, em uma reunião do ex-presidente petista com seu ex-ministro da Agricultura, no Instituto Lula, em São Paulo. Participaram do encontro, além Lula e Rodrigues, o próprio Padilha, nome mais cotado para ser o candidato à sucessão de Alckmin, o também ex-ministro da Secretaria de Comunicação Franklin Martins e o presidente nacional do PT, Rui Falcão.

O argumento do ex-presidente Lula não convenceu o ex-ministro da Agricultura a disputar uma eleição e tentar ocupar o cargo que já foi de seu pai, Antonio José Rodrigues Filho, vice-governador de Laudo Natel, entre 1971 e 1975. "Não quis porque nunca fui filiado e não seria agora que eu iria me filiar. Mas é fundamental que o setor tenha um relacionamento com a política para que o agronegócio ganhe a relevância que merece", justificou.

Rodrigues, então, indicou justamente Sampaio para a disputa, mesmo com o agora executivo e consultor de empresas do setor tendo ocupado a Secretaria de Agricultura de José Serra por quatro anos, permanecido no cargo nos primeiros meses do atual governo do tucano Alckmin e também coordenado a campanha do ex-governador na disputa com a atual presidente Dilma Rousseff à sucessão de Lula, em 2010.

Em conversa entre ambos, Sampaio ouviu de Rodrigues que a indicação ocorreu porque o ex-secretário alia o perfil político ao de líder do agronegócio. "Sou ligado ao PSDB, ao Serra e não há condições para aceitar esse convite", disse Sampaio a Rodrigues, segundo relato de interlocutores. Em um seminário do setor no último sábado, em Campinas, Sampaio foi apresentado por Rodrigues como "futuro governador de São Paulo".

A indicação dele para vice de Padilha, mesmo que inimaginável, animou petistas. Alguns cogitaram uma filiação de Sampaio ao PSD, na aposta que o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab possa desistir de uma candidatura à sucessão de Alckmin. Assim, o nome do ex-secretário seria viabilizado em uma coligação sem precisar se filiar ao PT.

Ânimo de alguns, piada de outros. Em um encontro casual com Sampaio, na residência de um banqueiro na capital paulista, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, atual consultor, Antonio Palocci brincou com o ex-secretário: "João, você vai se aliar a nós? Vou pagar para ver você defendendo a política do PT", disse, segundo relato de presentes.

FHC

Paralelamente, o ex-presidente FHC retomou a mesma ideia de 2009 de emplacar Sampaio como vice de Alckmin. À época, o nome de Guilherme Afif Domingos, hoje no PSD, foi o escolhido. Mas, como Alckmin não terá mais Afif como vice em 2014 - já que ele acumula agora o cargo com o a Secretaria da Micro e Pequena Empresa do governo federal -, Sampaio seria a opção.

"Ele é um nome do setor empresarial e, principalmente, seria um consenso no PSDB e traria a união do partido em São Paulo. Além disso, não causaria problemas para Alckmin em 2018, quando o governador (caso seja reeleito) se licenciaria para disputar outro cargo", afirmou uma fonte.

Sampaio admitiu as sondagens, não comentou os bastidores das negociações, mas confirmou que terá uma reunião, entre amanhã e quarta-feira, com Alckmin. O ex-secretário, entretanto, foi enfático e reafirmou sua posição de sempre. "Não irei me filiar e não serei candidato", resumiu. Resta saber se FHC e Alckmin terão bons argumentos para convencê-lo a aceitar a disputa em 2014.

A assessoria do ex-presidente Lula informou apenas que ele não comenta possíveis articulações para 2014. Já a assessoria de FHC informou que o ex-presidente não irá se pronunciar e o assunto, até aquele momento, era desconhecido para ele.


Eike só pode vender fatia no Rock in Rio com OK do Mubadala

Empresário teria dado os 50% de participação que tem no festival ao fundo como garantia de empréstimos


Daniela Barbosa, de

Getty Images


Rock in Rio: festival foi dado como garantia ao fundo Mubadala por Eike

São Paulo – Roberto Medina já deixou claro que pretende desfazer a sociedade que tem com Eike Batista no Rock in Rio e já contratou o BTG Pactual para tocar a negociação. O empresário não sabia, no entanto, que Eike tinha oferecido sua fatia de 50% no festival ao fundo Mubadala como garantia de empréstimos.

Segundo a coluna Radar Online, da revista Veja, desta segunda-feira, qualquer negociação de compra e venda precisa passar pelo fundo soberano de Abu Dhabi. Na ultima semana, Medina foi pessoalmente conversar com o sócio para resolver a situação, mas Eike não estaria disposto a rescindir o contrato.

Em maio do ano passado, o empresário anunciou a compra de parte do Rock in Rio. Por meio de sua empresa de entretenimento IMX, Eike adquiriu a metade das ações da companhia Rock World, proprietária da marca Rock in Rio, controlada por Medina.

Na ocasião, o valor total da operação de compra não foi divulgado e Eike se limitou a dizer em entrevista coletiva que o custo do investimento foi suficiente. O acordo previa o investimento 350 milhões de dólares nos próximos cinco anos no festival.

Há pouco mais de um ano, Eike enfrenta dificuldades financeiras com as empresas X. O empresário já precisou vender parte de algumas operações, renegociar dívidas e contratar novos empréstimos. O fundo árabe figura como um dos maiores credores do empresário. 

O Mubadala tem cerca de 2 bilhões de dólares aportados na EBX. O montante representava, em 2012, 26% da carteira de empréstimos do fundo árabe. Por isso, perder uma garantia como o Rock in Rio pode não ser um bom negócio.


Brasil 247: Cabral pode cair para cima e entrar no ministério de Dilma

Crianças sem identidade, o trabalho infantil na produção de castanha de caju



Texto e fotos por Daniel Santini, da Repórter Brasil da série especial Promenino*

Enviado a João Câmara (RN) - Olhe a ponta do seu dedo. Repare no conjunto minúsculo de linhas que formam sua identidade. Essa combinação é única, um padrão só seu, que não se repete. As crianças que trabalham na quebra da castanha do caju em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, não têm digitais. A pele das mãos é fininha e a ponta dos dedos, que costumam segurar as castanhas a serem quebradas, é lisa, sem as ranhuras que ficam marcadas a tinta nos documentos de identidade.

O óleo presente na casca da castanha de caju é ácido. Mais conhecido como LCC (Líquido da Castanha de Caju), esse líquido melado que gruda na pele e é difícil de tirar tem em sua composição ácido anacárdico, que corrói a pele, provoca irritações e queimaduras químicas. No vilarejo Amarelão, na zona rural de João Câmara, as castanhas são torradas – além de corroer a pele, o óleo é inflamável – e quebradas em um sistema de produção que envolve famílias inteiras, incluindo as crianças.

Com a pele cada vez mais lisa, as pontas dos dedos perdem as digitais, e as linhas e traços de identidade se esfacelam.

O óleo é pegajoso. Basta pegar uma castanha e quebrá-la para ficar com a pele manchada por alguns dias. Nem todas as crianças e os adultos que trabalham no processo sabem que o óleo é ácido. Muitos acham que a mão fica assim machucada por conta da água sanitária utilizada para tirar o preto encardido da mão depois de horas seguidas manuseando e quebrando as castanhas torradas. “Se fosse assim, as pessoas que usam água sanitária para limpeza estariam roubadas! É o óleo LCC que tem uma ação irritante, ele é cáustico, produz lesões e chega a retirar as digitais”, explica o médico Salim Amed Ali, autor de diferentes estudos sobre doenças ocupacionais para a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), do Ministério do Trabalho e Emprego. A perda da identidade não é permanente. Com o tempo, as digitais voltam se a pessoa se afastar da atividade.

Sobrevivência

O médico fez pesquisas específicas sobre a saúde de trabalhadores de unidades industriais de processamento de castanhas de caju e diz que a atividade pode ser considerada insalubre. No caso em questão, em que a produção é totalmente artesanal e as famílias dependem do trabalho para sobreviver, ele destaca quão contraditória é a situação. “A subsistência está calcada em condições de trabalho inviáveis. Para viver, o sujeito precisa se submeter a condições inaceitáveis e as crianças acabam sacrificadas. Não dá para aceitar isso em pleno século 21”, afirma.

Um menino e uma adolescente se revezando ao redor da mesa. A garota é quem cuida do fogo, alimenta a lata improvisada com cascas de castanha e controla as labaredas espirrando água com uma garrafinha. A fumaça sobe e cobre seu rosto. Um cachorro dorme perto do fogo. Eles estão nessa atividade desde a madrugada, começaram às 3 horas. É preciso começar cedo, no sol do sertão nordestino, não dá para continuar com o calor de meio-dia.

Os trabalhos começam cedo, devido ao calor do sertão nordestino; ao meio-dia, o sol é muito forte para prosseguir

O garoto tem 13 anos e, assim como a irmã, cursou até a quarta série do ensino fundamental mas tem dificuldades para ler e escrever. Largou a escola na quinta série porque teria de viajar uma hora de ônibus para ir até uma que atende alunos mais velhos, localizada na área urbana de João Câmara – trabalhar e estudar ao mesmo tempo já é difícil quando a escola é perto; quando não há escolas perto, impossível. Ele quebra as castanhas com agilidade, seus dedos fininhos seguram, selecionam e escapam das pancadas duras.

São poucas as palavras, ambos trabalham em silêncio e as respostas são curtas. Na mesa vizinha, os mais velhos reclamam da falta de água – a que a prefeitura tem entregue para abastecer as cisternas do bairro é salobra. “Dá dor de barriga e aí a gente tem de comprar água de garrafa, vê se pode”, conta uma mulher de 63 anos, que já passou fome e acha melhor que as crianças trabalhem com castanhas do que colhendo algodão ou roçando pasto para o gado, atividades que exerceu quando criança.


Meninas, meninos, pais, mães e famílias inteiras se misturam para organizar a produção das castanhas

Em outra unidade de produção, uma família adapta o ritmo à existência de um recém-nascido. Uma adolescente, também de 15 anos, se reveza com o marido de 18 anos e sai, de tempos em tempos, para amamentar o bebê. “Eu lavo as mãos bem antes de pegá-lo, para não sujá-lo”, conta a mãe, antes de fazer uma pausa às 4 horas. O trabalho costuma ir até as 11 horas e, à tarde, todos trabalham tirando a pele fininha.

O emprego de crianças na quebra da castanha de caju está incluído na lista de piores formas de trabalho infantil, ao lado de atividades como beneficiamento do fumo, do sisal e da cana-de-açúcar. A situação a que estão submetidas as crianças de João Câmara (RN) não chega a ser novidade. A auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas, coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador, tem realizado sucessivas ações de fiscalização, denunciado a situação e cobrado soluções. “Não dá para aceitar que as crianças continuem nessa situação, mas não basta reprimir, é preciso oferecer alternativas”.

A representante do poder público reconhece o problema na região, mas admite: “não conseguimos avançar”

Além de identificar as crianças e reunir informações para relatório a ser entregue ao Conselho Tutelar da cidade, ela também tem procurado cobrar providências por parte da prefeitura sobre a situação das famílias. Os programas sociais são considerados insuficientes pelos moradores, que reclamam da atuação do poder público. “Sabemos do que está acontecendo, mas até agora não conseguimos avançar”, admite Maria Redivan Rodrigues, secretária de Assistência Social e primeira-dama de João Câmara, que promete solucionar o problema em um ano, até setembro de 2014. O Brasil se comprometeu a erradicar as piores formas de trabalho infantil até 2015, mas, mesmo com denúncias, situações com a de João Câmara persistem.

Em 24 de fevereiro de 2012, o promotor Roger de Melo Rodrigues, do Ministério Público Estadual, abriu o Inquérito Civil nº 06.2012.00003777-7 após denúncias. “Ele disse que ia processar as famílias, tentou proibir as pessoas de trabalhar, deixou todo mundo apavorado. Foi muito ruim”, diz Ivoneide Campos, presidente da Associação Comunitária do Amarelão. “A fumaça faz mal, a gente sabe, mas as famílias não querem mudar o método com que sempre trabalharam. E não adianta forçar, tem de transformar em querer, ajudar na busca de alternativas”, defende.

Procurado para comentar a reclamação, o promotor negou, em nota, que sua atuação tem sido meramente repressiva. Ele diz que “os problemas relacionados à queima de castanha, tais como impacto ambiental, danos à saúde dos moradores e trabalho infantil, não têm passado desapercebidos do Ministério Público Estadual” e que “em vez de buscar a repressão de delitos relacionados ao caso, esta Promotoria tem priorizado o diálogo com a respectiva comunidade, já havendo sido realizadas duas reuniões no local com todos os interessados e representantes de órgãos municipais, estaduais e federais, objetivando a construção de um consenso para solucionar o caso”.

O promotor reclama, porém, que embora “busque uma resposta adequada e legítima aos problemas, tem enfrentado alguma resistência relacionada ao costume já enraizado, da parte de algumas famílias locais, de proceder à queima de castanhas ao alvedrio dos respectivos danos decorrentes, o que não impedirá uma atuação isenta e efetiva para a resolução do caso”.

Potiguar

Entre as famílias que dependem do processamento de castanhas de caju para sobreviver estão as de um assentamento localizado na região de índios Potiguar, um dos poucos núcleos remanescentes dessa etnia que no passado povoou o estado inteiro. Os ganhos são mínimos. A castanha crua é comprada de pequenos produtores da região de Serra do Mel. Um saco de 50 kg rende, em média, 10 kg de castanha processada. As famílias contam que ganham de R$ 30 a R$ 100 por semana, vendendo a produção a intermediários que revendem em feiras e mercados de cidades.

Assim que as castanhas estão torradas, as mãos se levantam; pancadas quebram uma noz, depois outra e outra, e outra.

O óleo se esparrama em torno das unhas, pela ponta dos dedos e, quando se vê, as mãos inteiras já estão cheias de ácido

“Tentamos identificar quem lucra com isso, mas é um sistema muito primitivo. As indústrias organizaram a produção e estão processando diretamente as castanhas, não identificamos nenhuma envolvida. Os intermediários são pequenos comerciantes que adquirem o produto diretamente com as famílias”, explica o auditor fiscal José Roberto Moreira da Silva.

Criatividade na busca por soluções para as famílias não falta. Nilson Caetano Bezerra, do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador Aprendiz, por exemplo, sonha em fazer parcerias com as empresas de produção de energia eólica, que fazem multiplicar o número de torres de geração na região, para empregar adolescentes como aprendizes. E em providenciar máquinas para que os adultos não tenham de manusear as castanhas torradas. Experiências com mecanização já aconteceram, mas o descasque manual ainda é o preferido porque a taxa de desperdício é menor.

Mesmo que já exista formas de produção mecanizadas, ainda há preferência pelas técnicas manuais, que seriam mais produtivas

Em fevereiro, o juiz Arnaldo José Duarte do Amaral, titular da 9ª Vara do Trabalho de João Pessoa, visitou a comunidade e também encontrou as crianças trabalhando na produção de castanhas. Ele escreveu um artigo sobre a questão e, desde então, tenta articular soluções e envolver mais interessados em resolver o problema. “Quando estive lá como juiz, me perguntavam se ia prender alguém. Não é esse o papel do judiciário, o objetivo não é prender ninguém, é achar solução”, diz, defendendo a formação de cooperativas e mecanismos de economia solidária como o melhor caminho para erradicar o trabalho infantil e melhorar a condição de trabalho dos adultos. “A gente tenta corrigir essas questões há séculos, sem sucesso. Não bastam ações repressivas, que vão além de tentar punir.”

Governo rifa os direitos indígenas, diz antropóloga



Para Manuela Carneiro da Cunha, Dilma cede à pressão dos ruralistas

A professora da USP e da Universidade de Chicago fala ainda em 'ofensiva sem precedentes' contra os índios no Congresso

RICARDO MENDONÇA, DE SÃO PAULO

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das mais influentes estudiosas da questão indígena no país, acusa a gestão Dilma Rousseff de promover um desenvolvimentismo de "caráter selvagem", sem "barreiras que atendam a imperativos de justiça, direitos humanos e conservação".

Para ela, Dilma "parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio".

Ao citar "uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios", chama a atenção para o projeto de lei --alçado ao status de urgência "com o beneplácito do líder do governo"-- que permitiria o uso de terras indígenas para várias finalidades, da instalação de hidrelétricas à reforma agrária. "Se passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas", diz.

Professora aposentada da USP e da Universidade de Chicago, Cunha também tem críticas ao Judiciário. Ela fala numa "tendência crescente e preocupante" de paralisar processos de demarcação em seu início. E estima que 90% das terras em fase de demarcação estão judicializadas.

Leia a entrevista completa Aqui!